1- O termo "sustentabilidade" vem sendo cunhado por especialistas desde os anos 70. O que mudou desde então? O conceito vem se adaptando?
O conceito de sustentabilidade surgiu como um parâmetro, como um limite ético para o desenvolvimento a qualquer custo, cujos resultados do métodos predatórios já eram amplamente conhecidos.
A lógica inicial era impecável, afinal, era evidente que modelo de desenvolvimento baseado em produção e consumo infinitos não funcionaria por muito tempo.
No entanto, o conceito tornou-se um consenso oco com o qual todos concordam, mas ninguém pretende mudar o modelo.
E, a partir de 1998, tornou-se vazio, porque o atual nível da crise socioambiental é irreversível, salvo se a economia mundial for reconceituada. Redesenhar a economia mundial seria um feito inédito e só poderia acontecer com maciço apoio social e realizado coordenadamente por todos os países. Ou seja, não irá acontecer. De qualquer forma, precisamos debater estes temas e encontrar as alternativas mais viáveis enquanto ainda temos tempo
2- Qual o melhor exemplo de projeto de "Desenvolvimento Sustentável" que você viu dar certo?
Nos setores de industria e comercio encontramos apenas casos episódicos de greenwashing. O mesmo na agricultura.
Em termos reais, apenas as experiencias agroecológicas são efetivamente sustentáveis. É uma prática agrícola com enorme potencial, mas, literalmente, desprezada e ignorada pelo modelo atual.
Agroecologia, definição: "A abordagem agroecológica propõe mudanças profundas nos sistemas e nas formas de produção. Na base dessa mudança está a filosofia de se produzir de acordo com as leis e as dinâmicas que regem os ecossistemas – uma produção com e não contra a natureza. Propõe, portanto, novas formas de apropriação dos recursos naturais que devem se materializar em estratégias e tecnologias condizentes com a filosofia-base" . Guterres, I. Agroecologia militante: contribuições de Enio Guterres. São Paulo: Expressão Popular, 2006
3- Como você vê o Brasil inserido no contexto da Ecosustentabilidade?
É de se lamentar que um país como o Brasil, que possui todos os recursos e oportunidades para liderar uma nova concepção de desenvolvimento, mantenha-se no curso de uma economia predatória.
E, o que é pior, assumindo uma posição de destaque como exportador de commodities, produtos primários e semi-acabados. Cinco commodities garantem 43% da exportação do Brasil.
4- E o aproveitamento de nossos recursos hídricos?
O Brasil possui um dos maiores potenciais hidricos do planeta e , também nisto, age de forma insustentável e irresponsável.
Uma das maiores perdas ocorre exatamente porque a commodities são as maiores sugadoras de água doce do mundo. Nesta situação o Brasil é o maior exportador mundial de água virtual e não cobra pela água que exporta.
Além do mais, 70% da demanda de água ocorre na agricultura e, no nosso caso, com um desperdício médio de 40%.
Jogamos fora muita água e exportamos boa parte através de produtos.
5- Você poderia apontar erros e acertos do nosso governo nos últimos anos? (Ministério do Meio ambiente)
Um ministério existe para servir às políticas do governo, quaisquer que sejam as políticas e o governo. No ministério do Meio Ambiente não é diferente.
Há décadas o Brasil optou pelo desenvolvimentismo a qualquer custo e o MMA serve a esta opção.
A atuação do MMA é, portanto, tão trágica quanto as políticas públicas adotadas pelo governo a quem serve.
6- É perigoso usar o "ecosustentável" apenas como etiqueta? Como o grande público pode perceber que empresas são realmente comprometidas?
O público pode facilmente reconhecer as empresas ambientalmente responsáveis das são predatórias ou apenas usam recursos de greenwashing.
O problema é que ele não se importa. Inúmeras pesquisas demonstram que os brasileiros sabem da importância do consumo como ato politico e econômico, mas não liga para isso.
Comumente, associamos o consumo ético a um ato individual de consciência, uma opção pessoal, mas ele também deve ser considerado em suas dimensões econômicas e políticas. Vivemos em um planeta finito e com recursos naturais igualmente finitos. No entanto, o nosso modelo econômico é baseado em produção e consumo infinitos. É evidente que este modelo não funciona por muito tempo. Além de ambientalmente irresponsável, este modelo também é socialmente injusto e economicamente excludente porque apenas atende à sanha consumista de uma fração da população. Dois terços da população mundial estão muito abaixo desta linha de consumo, nada usufruindo, mas arcando com os custos sociais e ambientais da degradação do meio ambiente e do esgotamento dos recursos naturais.
7- Qual seria a solução sustentável para uma economia que cresce cada vez mais, que tem como base a exploração de todos os recursos naturais e que estimula o consumo desenfreado? Parece incoerente. É possível?
A opção real e atual é o decrescimento econômico socialmente sustentável.
Ou, na definição de Joan Martinez Alier, Professor de Economia e História Econômica na Universidade Autônoma de Barcelona, “uma economia que satisfaça de modo sustentável as necessidades de alimentos, saúde, educação e habitação para todos, proporcionando a máxima joie de vivre (alegria de viver) possível.”
Revisar o modelo não só é possível, como absolutamente necessário. Não chegaremos ao século 22 produzindo e consumindo sem limites.
8- Quais são as dicas para quem quer ser sustentável no dia-a-dia?
O que hoje se convenciona chamar de consumo ético deve ser encarado como conservador em relação à manutenção do modelo consumista. Assim posso consumir irrestritamente, porque me justifico através do consumo ético. É uma forma de “indulgência” ao “pecado” do consumo. O consumo ético só será transformador se ele questionar o modelo consumista, assumindo sua dimensão coletiva e política em relação ao modelo econômico, às formas de produção e ao sistema político de sustentação. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia.
Volto à crítica do consumo ético individual, porque isoladamente nada questionamos, além de nossas escolhas pessoais. É necessária uma atitude politicamente ativa, lúcida e responsável que realmente questione o modelo atual. Não é fácil nem simples, porque serão exigidas profundas transformações, que modificarão as relações de trabalho e consumo. Na realidade, precisamos construir uma nova sociedade, com um novo modelo econômico. Voltando ao tema central, não teremos um futuro minimamente aceitável sem uma profunda revisão dos conceitos, fundamentos e modelo da economia. E não faremos esta revisão sem uma clara compreensão de nossa responsabilidade em termos de cidadania planetária.
Em primeiro lugar, precisamos abandonar o consumismo insustentável,optando por apenas consumir o que efetivamente for necessário. Nada mais.
O consumo é um ato político e econômico e, neste sentido, deve ser ético, responsável e sustentável. O consumo só é ético se for sustentável e isto só ocorrerá com uma gigantesca redução do consumo global. O planeta, por exemplo, já soma mais de um bilhão de veículos, das scooters aos megacaminhões. Vamos imaginar, além do consumo de combustíveis e emissão de gases, o que esta frota significa em termos de energia, água, mineração, siderurgia, recursos naturais consumidos etc. Isto é insustentável sob qualquer perspectiva. Então, este novo modelo deve significar uma nova forma de organização, produção e consumo. Se isto tornar-se uma posição firme e clara por parte da sociedade, ocorreriam grandes transformações sociais, políticas, econômicas e ambientais. Assim, talvez, consigamos chegar ao século 22.
fonte: saúde.com
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